17.11.10

8.6 na escala Richter

Não durou muito mais do que o refrão de 'Let it be', dos Beatles, e então, silêncio. Silêncio dos cantores, dos amantes, dos recém-nascidos, dos transeuntes, dos professores e também dos alunos. Estava tudo em pedaços. Os prédios deitaram-se, abraçando as ruas e esmagando sonhos, vidas. Apagaram-se as luzes e fecharam-se as cortinas. Cortinas lindas, feitas de poeira e destroços. E foi nesse cenário atípico de uma noite de verão que reencontrei minha cidade natal.

Soaram as sirenes; várias delas, e vinham de todos os cantos, ditando o compasso para a melodia que ia se formando, somando gritos histéricos, gritos por nomes, gritos por socorro, choros, e, curiosamente, ao canto dos pássaros que dançavam sobre nossas cabeças, mas que ninguém mais notou. – Sigo caminhando lentamente em meio ao caos, cantarolando baixinho qualquer coisa parecida com uma canção melancólica. O caminho não tem ruas muito bem definidas, então me sinto como se não soubesse o caminho de casa; mas pensando bem, isso tudo é minha casa, todo esse horizonte que meus olhos alcançam, então eu não preciso ter pressa. Aquelas imagens mereciam adjetivos dignos de um pós-apocalipse, descrições épicas de grandes escritores, porém, eu só enxergava beleza. Beleza nunca vista, apaixonante, avassaladora. Os pilares da Universidade Federal se misturavam às copas das árvores, livres da terra, e suas raízes eram formadas por corpos ensangüentados. Eram lágrimas vermelhas da natureza.

Olhando em volta, reconheci um velho colega de faculdade que parecia estar procurando alguém. Na verdade, todos ali estavam a procura de algo ou alguém, mas estava escuro demais, então teriam que esperar o mundo girar para que houvesse luz novamente.

Cheguei num lugar onde costumava ser minha praça favorita. Havia um banco inteiro, coberto de poeira cinza que ficou grudada em minha mão quando limpei o assento. Pus-me a pensar sobre o que me trouxera novamente para cá. Recordei as tardes brincando com as crianças no Jardim Botânico, as longas pedaladas ao redor do centro no reveillon de 2006, sem fogos de artifício nem felicitações de ano novo. Lembrei das madrugadas em que eu sentava nos bares do Largo e ouvia um bom jazz, tomava uns drinks e saía sem pagar a conta. Sem falar em meus amores, de diferentes línguas e sabores, que iam e vinham; nunca ficavam. Só ela ficou: Maria. Ah, Maria, de olhos negros e desdenhosos, cabelos tão negros quanto, e que se enrolavam em meu pescoço, trancando a respiração e transformando o ar em gemidos. Maria que adorava banhos de chuva e amava quando eu lhe dizia ser a mulher da minha vida. Mas chega. Isso não é uma história de amor. A cidade veio abaixo e todos os lugares e pessoas podem estar soterradas. Mas Maria, eu hei de lhe tirar do meio dos escombros.

Peguei no sono, ali no banco mesmo, sentado.

Amanheceu, e acordei com vozes de crianças ao redor. Elas não gritavam por ajuda, apenas brincavam de esconde-esconde, felizes, entre as ruínas. Então percebi que essa continuava sendo minha praça favorita.

6 Falaram mais sobre isso:

Maria disse...

Muito lindo! to seguindo, segue também? www.umprofundosentimento.blogspot.com

gabs disse...

Curti muito seu blog, estou te seguindo, parabens.

Kênnia Méleus disse...

Que bonito o encaixe das suas palavras. Linda escrita, recheada de sentimento, sustentada por um bom português. Parabéns, estarei sempre por aqui.
Abraço.

Douglas Thaynã disse...

E sua Curitiba é também bela. Excelente texto, incrível! Parbéns, cara.

Natália disse...

Lindas palavras! É tão bonito o jeito que tudo se encaixa no texto... Parabéns!

David Weydson disse...

Texto Perfeito...
Uma visão bela do mundo, mesmo em meio as "desgraças" que eu acho fascinantes...
Fico feliz por outros também acharem
=D