10.11.10

City of illusions

Careço, desesperadamente, sair dessa cidade. Sair dessa miséria de desejos, desse armazém de sonhos encaixotados em centenas de caixas iguais, que dizem: “cuidado! frágil”. O ar dessa cidade está intragável, pois tudo que o povo expira são gases que misturam dor, ganância, terror e conformismo. Nem mesmo essas árvores me agradam mais.

Meus amigos que me perdoem, mas já não posso mais segui-los com esses passos lentos e planejados. Tenho sede. Admiti que nos fins dos arco-íris dessa cidade não existem potes de ouro. Aliás, é tão raro ter arco-íris por aqui. – Não posso deixar de falar dos vizinhos. Senhores de olhar repressor, que dão a vida por apenas uma coisa: bater o ponto na hora certa. Senhoras desconfiadas, tecendo em gordos e infinitos rolos de lã, enquanto olham, tortuosamente, para as crianças, cuidando para que não atravessem o portão de alumínio e sejam atingidas por uma bala perdida. Eu, às vezes, penso ser uma bala perdida, perdida pelas ruas descoloridas dessa cidade, esperando por um coração para acertar em cheio; atravessar. Mas os corações estão entrando em extinção por aqui.

Amanhã eu vou comprar minha passagem de ida, mas agora, antes de qualquer coisa – e até mesmo de terminar de escrever isso – eu preciso me apressar para não perder a hora de bater o ponto.

1 Falaram mais sobre isso:

Fernando Franco disse...

porra, adorei.
é exatamente isso que todo mundo faz: repressão, conformismo e preguiça.
queria diferente.