21.12.10

Sobre Pseudomoralismo

Não sou dos mais moralistas, mas se o fosse, iria considerar como maior ato de imoralidade o falso moralismo.

Praticamente quase todas as sociedades e instituições sociais modernas têm seus modos de conduta bem definidos, os quais variam de cultura para cultura. Há muito tempo as definições de certo e errado, comportamentalmente falando, vem sendo ‘aprimoradas’ por códigos de ética, leis, mas, principalmente por censura. Essa última que já nos é aplicada desde a infância: "isso pode - Isso não pode'. Desde o início somos expostos pelas nossas famílias à introdução de disciplina, para que mais tarde possamos projetar esse conteúdo em todas as fases e situações de nossas vidas. Apesar de processos e emoções inatas, aqui, o ponto mais importante é a aprendizagem. Agem nesse momento as mais variadas determinantes para a formação da moral: a imitação, a privação, a educação, as relações de afeto, entre outras. E o que vai ditar o andamento desse processo são, principalmente, o ambiente e o desenvolvimento cognitivo, através de estímulos aos quais se é exposto, sem ignorar, é claro, as características de personalidade que nos são transmitidas geneticamente.

Mesmo que lhes tenha parecido algo completamente teórico e fundamentado, não é meu objetivo falar a respeito de processos psicológicos, nem mesmo de ações sociais. Pretendi, até aqui, apenas descrever um breve (e até certo ponto superficial) pensamento a respeito do desenvolvimento pelo qual todos passam até chegar a adultescência, e, finalmente, aplicar em suas vidas e relações sociais todo o conteúdo introduzido. - O objetivo deste texto é fazer uma análise, e, porque não, uma crítica ao falso moralismo que observo em vários momentos e lugares mais diferenciados que conheço.
Trazendo o assunto para a nossa sociedade ocidental-capitalista, o que se percebe são inúmeras páginas de escritos nos dizendo o modo correto de agir. Mas na verdade, isso não é de hoje; há muito tempo as religiões e crenças já trazem ordens enumeradas, e no decorrer da história mais e mais códigos foram incorporados. O que temos hoje é o advogado com uma constituição enorme debaixo dos braços, o padre e o pastor com a bíblia, a propaganda e os meios de comunicação dizendo a todo o momento ‘como ser legal e original’ e mais todas as pessoas à nossa volta dando seus palpites; não só expondo opiniões, mas, principalmente, tentando impor e fazer com que os outros as aceite a qualquer custo. Creio que esses meios não conseguem ser efetivos o suficiente, pois a cada esquina que passo eu vejo um ladrão, uma prostituta, um assassino, um padre pedófilo, um político corrupto, um policial corrupto, tráfico de drogas, uma garota de 12 anos grávida, um menino de 10 anos pedindo dinheiro no semáforo e infindáveis comportamentos tão citados como errados. Vejo também transeuntes passarem por um homem morrendo caído ao chão e não darem a mínima atenção, afinal, ele deve ser um mendigo ou um bêbado, certo? – Cada um usa de seus valores para se prevalecer sobre o outro, então eu lhe pergunto: Quanto é que você vale?
Não, não quero julgar, defender, muito menos acusar nada nem ninguém. Não quero fazer um discurso humanista e nem de solidariedade. Mas quanto é mesmo que você vale? – De onde vem toda a prepotência e o orgulho que leva um ser humano a questionar e humilhar o outro ser humano?
Você não mata, você não rouba, você não se prostitui, você não transa com crianças, você não veste um cinturão de bombas e destrói lugares, você não dorme nas ruas embriagado, você não engravidou com 12 anos...
Mas você machuca por ciúme, joga o lixo no chão, maltrata por vingança, mata por poder, rouba a liberdade por possessão,vende seu voto por dois litros de combustível, recebe o troco maior do que deveria e sai sorrindo, transa com o marido da sua melhor amiga. Você mente pra ganhar algo maior, pede mais 10 mil reais de aumento, contribuindo e reforçando a idéia da má distribuição de renda, você compra dois, três, quatro carros sem necessidade e faz questão de manter todos eles poluindo bastante, você inveja o outro porque não tem capacidade de reconhecer a admiração que tem por ele, você compra produtos do exterior pagando altos impostos e não está nem aí pro fato de que se comprasse o mesmo produto brasileiro poderia de uma mínima forma contribuir para o desenvolvimento do seu país. Você vai ao culto, recebe a idéia de que a sua religião é a melhor e sai pelas ruas tentando mudar as idéias das pessoas, e quando não consegue, as criticam. Você compra seu diploma, sua carteira de motorista, paga sua fiança, você joga o filho pela janela, você classifica por raça, cor, credo e classe social todos os que lhe são convenientes, você compra e compra por ter, por poder, e não por real necessidade, você ama por possuir e não por sentir, e sim, você vai deixar o homem caído no chão morrer porque você acha sim que ele é um mendigo-bêbado-ladrão-drogado. Agora você questiona que há muita diferença entre os ‘erros’ que eles fazem e os que você faz, mas, será?

Enfim, qual é o preço da sua moral? Quanto é que você vale mesmo?

5 Falaram mais sobre isso:

Gabriela Coelho disse...

"O que temos hoje é o advogado com uma constituição enorme debaixo dos braços, o padre e o pastor com a bíblia, a propaganda e os meios de comunicação dizendo a todo o momento ‘como ser legal e original’ e mais todas as pessoas à nossa volta dando seus palpites; não só expondo opiniões, mas, principalmente, tentando impor e fazer com que os outros as aceite a qualquer custo."

é sempre a imposição do seu próprio lado, é sempre o extermínio do que está contrário a você. é sempre o básico revertido. é sempre falar e não agir. e eu sinceramente, não sei nem mais dizer se toda essa hipocrisia, todo esse falso moralismo, conseguem deixar de atingir um único ser humano... simplesmente porque eu não sei dizer se acho que isso é instintivo próprio e eterno ou culpa dessa sociedade que nos culpa assim.



"... e sim, você vai deixa o homem caído no chão morrer porque você acha sim que ele é um mendigo-bêbado-ladrão-drogado. Agora você questiona que há muita diferença entre os ‘erros’ que eles fazem e os que você faz, mas, será?"

isso foi muito bom, william.
parabéns, mesmo.

Gabriela Coelho disse...

ops, errinho:
**simplesmente porque eu não sei dizer se acho que isso é instintivo próprio e eterno ou culpa dessa sociedade que nos cria assim.

Recalcado disse...

tenho muito, muito medo de que esse pseudomoralismo seja uma coisa instintiva, innata, que venha em algum cromossomo, porque, se realmente for assim, é um dos motivos pra eu ter vergonha da minha própria espécie.

eu nem tenho utopia de perfeição e nem de que tudo funcione 'direito', mas com um bocado a menos de falso moralistas eu já me sentiria um pouco mais feliz.

Kênnia Méleus disse...

Cara, texto excelente; escrita impecável. Muito bom ler textos assim, fugir um pouco da poeticidade e do lirismo, e encarar a nua realidade que nos cerca.
Abraço.

Eduardo. disse...

Hey homem, te mandei um selo, vê lá no post recente do blog.